No auge dos seus 70 anos, onipresente!

 

No auge de seus setenta e dois anos, Dona Ivone ainda vem até a porta do meu quarto avisar que a comida está na mesa. Sou mesmo uma inquilina muito privilegiada. É incrível receber parte de seu afeto tão bem distribuído entre familiares e amigos no decorrer desses dias aqui na pensão. Vi que de manhã limpou toda a casa. Tirou o pó, deu uma varrida, passou aspirador por capricho, um pano nas janelas, e ao final, deixou todo o piso da casa brilhando com seu imenso rodo. Pouco antes do almoço, tratou de levar o Miguel para escola, seu neto caçula. Em seguida, voltou para nos alimentarmos e a tarde demonstrou sua habilidade tecnológica na chamada do táxi pelo aplicativo para ir à duas ou três reuniões tratar dos assuntos da padaria que o Zé deixou anos atrás. É ela quem faz tudo, todo santo dia. Quantos infinitos braços possui essa mulher? Fico me perguntando se em algum momento da vida questionou-se sobre tudo o que fez e ainda faz.

Durante o almoço, curiosa, perguntei se Dona Ivone tinha consciência das diversas atividades que praticava durante os dias que se seguiam. Embalada por uma gargalhada, respondeu que depois de tratar dos negócios da padaria, se organizava para lavar e passar algumas roupas e a noite ainda fazia natação por causa das dores musculares. “Já são anos fazendo infinitas coisas que só Deus sabe.” ela dizia.

O universo feminino ressoa permanentemente como um grande mistério nas linhas do tempo. Busco encontrar uma outra palavra para definir tamanho contexto social participativo, mas assumo que a única coisa que me vem ao coração é onipresença. Mulheres são mesmo como Deusas!

Outro dia conversando com uma de suas vizinhas, descobri que Dona Ivone foi uma dessas adolescentes arretadas. Posicionou-se sobre o divórcio quando poucos falavam sobre. Fugiu duas vezes com um tal de André. Namorou algumas garotas quando sentiu vontade. Gostava de ser livre e trabalhar com o que fizesse seu coração pulsar. Clotilde, a vizinha, ainda comentou que Dona Ivone dizia que uma rotina de casamento impossibilitaria sua carreira de modelo, por isso, preferiu deixar para casar depois dos 35. E olha que ela deve ter tido mesmo potencial! Há uma classe semelhante à de Gisele em seu andar. Uma diplomacia descontraída em sua fala. Dona Ivone se tivesse signo, acho que seria de aquário. Totalmente fora de seu tempo!

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Tenho acreditado que o mundo precise mais de Donas Ivones.

É evidente que diante de tantas possibilidades que englobam o mundo feminino, cumprir os papéis que cumpriu Dona Ivone é sempre uma escolha pessoal, mas mulheres no geral, constróem pontes de cuidado com tudo que tocam. São geradoras da vida.

Algumas cuidam da casa e sustentam seus filhos com o próprio leite que seu corpo, inteligente, produz. Outras trabalham fora e por vezes até se jogam no mundo do empreendedorismo. Tem até quem faça os dois de uma vez só! Algumas estão pelas ruas, onde levantam suas bandeiras em movimentos sociais. Mulheres criam suas próprias rotinas e ainda contribuem com a dos outros. Dirigem seus carros e trocam pneus sozinhas se precisar. Exibem curvas finas ou arredondadas, mas nunca sem as particularidades de seus trejeitos. Tantas em uma e ao mesmo tempo tão únicas em suas individualidades. Quantas Deusas!

Perguntei pra Dona Ivone se ela se considerava uma mulher empoderada. Estamos em uma fase especialmente grandiosa em relação ao tema. Como uma boa jornalista, me assumo como um ser extremamente curioso, por isso, quis saber o que pensava sobre. Ela sempre me inspira com insights de boas reportagens, principalmente sendo colunista de uma revista sobre saúde na terceira idade.

Mulher não se torna empoderada, mulher nasce para empoderar-se. Todas essas que você vê por aí, atentas ou não aos movimentos sociais que tem acontecido, carregam a desafiadora missão de mostrar ao mundo que o poder feminino, pode reconstruir até o pior dos mundos em guerra.

Eu acho incrível como essa mulher permeia e costura as linhas do tempo proporcionando reflexões coerentes em relação ao que vivemos hoje em dia em comparação ao passado. Tenho que concordar que mulher não tira férias como diz Dona Ivone. Ser mulher para ela é realmente trabalhar na construção de um novo mundo - estamos sempre em atividades diversas e com quantos braços forem necessários.

Notei que ao sair da mesa, respirou fundo apoiada na porta. Senti que a conversa havia despertado lembranças. Então olhou pra mim, sorriu com gentileza e expressou-se:

Nossa luta não deve ser somente pelo equilíbrio de responsabilidades pessoais e profissionais frente às nossas famílias ou sociedade, mas pela empatia e respeito pelo nosso sexo. Sabe Pandora, esses dias ouvi de uma menina de uns vinte e poucos anos  uma frase e gostei tanto que adotei no meu vocabulário: Se não fosse pelo meu útero, ninguém estaria aqui!

Dona Ivone agora gargalhava achando graça da frase da adolescente. Eu, já não tive o que responder. Me limitei a admiração de sua identidade exposta com tanta verdade naquele momento. Sinto como se Dona Ivone guardasse infinitas histórias sobre seu protagonismo revolucionário como mulher frente a sociedade que vivemos.

Dona Ivone é mesmo um ser fantástico.

Talvez eu escreva sobre ela na coluna um dia desses…

 
 

 
 
 
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ana miranda

comunicadora social, construtora de narrativas digitais e nossa embaixadora no brasil. ela pode ser a sua também.